30 de junho de 2021

Geração de trabalho e renda: o papel dos diferentes setores da sociedade


No primeiro dia do Festival da Cultura Empreendedora, os debates foram permeados pela importância do enfrentamento das desigualdades de gênero e raça que estruturam o país.

Festival dia 1

Cultura empreendedora e os desafios e oportunidades para geração de trabalho e renda no Brasil foi o tema que norteou as atividades no primeiro dia do Festival da Cultura Empreendedora.

Realizado pelo Instituto Alcoa nos dias 23, 24 e 25 de junho, o evento contou com painéis, mesas e oficinas que reuniram especialistas e representantes de diferentes segmentos da sociedade para debater caminhos e respostas possíveis para ampliação do acesso a trabalho e renda no país em um cenário agravado pela pandemia de Covid-19.

A mesa de abertura do Festival se dedicou à reflexão sobre os desafios e oportunidades para a atuação de empresas, organizações da sociedade civil, poder público e cidadãos.

Anfitrião do painel, Otávio Carvalheira, presidente da Alcoa Brasil, deu as boas vindas aos mais de 130 participantes, trazendo um breve panorama dos desafios.

“O desemprego já atinge mais de 14 milhões de brasileiros, infelizmente o maior índice da série histórica do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas], realizada desde 2012. Nesse cenário, as pessoas mais afetadas são mulheres e jovens”, observou.

Reforçando a atuação estratégica do IA no tema desde sua fundação há mais de trinta anos, o presidente ressaltou o movimento de colaboração suscitado pela pandemia e os resultados das ações do Instituto em resposta aos efeitos da situação de emergência, sobretudo nas comunidades mais vulneráveis.

“Vimos uma onda filantrópica sem precedentes na história e a Alcoa faz parte dela, tendo doado mais de 4 milhões de reais, que, somados aos recursos direcionados pelo Instituto Alcoa e pela Alcoa Foundation, possibilitaram a realização de diversos projetos e ações nas comunidades onde estamos presentes. Acreditamos que essas ações têm um impacto positivo direto no enfrentamento das desigualdades, tão presentes no nosso país.”

Tatiana Bizzi, diretora executiva do Instituto Alcoa, completou com os números das ações de ajuda humanitária realizadas desde 2020 pelo IA em resposta aos efeitos da pandemia.

“Foram mais de 6 milhões de reais e cerca de 2.200 horas de trabalho voluntário dedicados a 17 projetos, além de diversos programas  e ajudas humanitárias. Com estas doações, cerca de 2 milhões de reais, foram direcionados ao programa de apoio a projetos locais e 10 projetos exclusivamente à frente de geração de trabalho e renda nas comunidades em que atuamos. O Festival é uma oportunidade de fortalecer essa atuação na busca por respostas para esse tema tão fundamental para o país.”

O papel do pequeno empreendedor

A partir da atuação da Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) com o conceito de Small and Growing Businesses (SGBs) - Pequenas Empresas em Crescimento, em português -, Cecilia Zanotti, gerente da ANDE no Brasil, salientou o papel dos pequenos empreendedores no enfrentamento dos desafios.

“Essas empresas, que têm até 250 colaboradores, representam apenas 28% do ecossistema empresarial, mas são responsáveis por 42% da força de trabalho do país. Empreender no Brasil é tarefa para heróis e os pequenos empreendedores já fazem o seu papel. Eles precisam de apoio, sobretudo as mulheres negras, que representam o maior grupo populacional do país, 27,8%, e o mais afetado e menos representado em instâncias de poder”, observou.

A especialista enumerou três oportunidades de atuação para apoio ao setor com uma lente de gênero e raça:

Valorização da diversidade (com ações afirmativas voltadas a empreendedoras, colaboradoras, executivas, conselheiras, e funcionárias públicas);

Divisão de riquezas (escalando soluções criativas das periferias);

Investimentos em tecnologia (com ações voltadas à geração de postos de trabalho).

 

O papel do poder público

Para Diva Funchal, coordenadora de Fomento à Indústria e Comércio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho de Poços de Caldas (MG), o papel do poder público passa por promover um ambiente amigável para o empreendedor e a empreendedora.

“Investir em capacitação, ciência e tecnologia e na desburocratização do sistema são caminhos necessários para incentivar os empreendedores informais e as pequenas empresas, que hoje encontram muitas dificuldades para empreender, seja pelo excesso de controle, pelos altos custos ou pela complexidade para acessar linhas de crédito”, explicou.

Valorizando a economia local

Na avaliação de Alice Freitas, diretora executiva da Rede Asta, uma oportunidade está em possibilitar o acesso de artesãs ao mercado e conhecimento, a fim de tornar o trabalho dessas mulheres um negócio viável.

“O artesanato foi um dos muitos setores totalmente paralisados pela pandemia. Em um momento em que as mulheres precisavam mais do que nunca se reinventar, nos vimos frente ao desafio de buscar saídas para apoiá-las de um modo totalmente diferente do que estávamos acostumados”, contou a diretora.

Uma dessas oportunidades foi o projeto Máscara + Renda, responsável por articular o trabalho de costureiras espalhadas por todo o Brasil para a produção de máscaras doadas para as comunidades vulneráveis em que as próprias empreendedoras estão inseridas. A iniciativa é uma realização da Rede Asta e da Fundação Vale com a contribuição de diversos parceiros, entre os quais o Instituto Alcoa.

Atualmente, a organização aposta em um sistema tecnológico que permite mapear empreendedores em diversas áreas para promover o engajamento cidadão em prol do fortalecimento de economias locais para a recuperação econômica do país.

“A plataforma Pertinho de Casa é fruto de uma parceria com a Accenture para a construção de um marketplace das comunidades. Com ela, você consegue saber o que todo mundo está fazendo dentro da sua cidade ou bairro e, assim, pode dar preferência a esses produtos. A plataforma é gratuita e também oferece aos nano, micro e pequenos empreendedores a possibilidade de se digitalizarem”, explicou.

O que pode fazer o cidadão comum

A atuação individual de cada brasileiro e brasileira foi pautada pelas debatedoras como necessária para a superação dos desafios.

Nessa direção, Cecilia aposta no voto como forma de trazer para a política mais mulheres, sobretudo negras e, assim, promover mudanças efetivas no cenário da geração de trabalho e renda com inclusão e equidade.

A especialista enumerou ainda a importância da doação através das inúmeras plataformas disponíveis e o poder do consumo por meio de escolhas mais conscientes.

Para Alice, priorizar produtos e empreendedores locais é também um ato cívico que pode fazer avançar a agenda.

“Ler rótulos, observar a origem dos produtos, comprar do pequeno produtor, daquele mais próximo da gente, são formas de movimentar a economia local e, com isso, também apoiar as pequenas empresas, que são as que mais empregam. Quando começarmos a trocar marcas por origem, estaremos trilhando um bom caminho”, defendeu.

Diversidade e empreendedorismo

O Brasil se destaca pela forte presença feminina e de pessoas negras no ecossistema empreendedor. Essas e esses empreendedores, no entanto, precisam enfrentar diariamente um ambiente social desfavorável imposto pelo racismo e machismo que estruturam a sociedade brasileira. Por outro lado, fica cada vez mais evidente, em estudos e ações protagonizadas pelas periferias e sociedade civil, a potência da diversidade na busca por transformação.

Esse foi o pano de fundo dos debates realizados no período da tarde do primeiro dia do Festival da Cultura Empreendedora, que contou com a abertura de Walmer Rocha, gerente de Operações de Poços de Caldas, e com a participação de representantes de organizações que têm apostado na promoção da equidade de gênero e raça para quebrar paradigmas, reverter o cenário de desigualdades e fortalecer iniciativas de geração de trabalho e renda e empreendedorismo.

Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e CEO do PretaHub, dividiu com os mais de 100 participantes do painel um panorama de desafios históricos.

“Não tivemos nenhum tipo de reparação ao período escravocrata no Brasil. As mulheres negras libertas foram as primeiras a empreender por terem em sua ancestralidade a veia comercial das feiras africanas. Esse legado foi responsável pela construção do empreendedorismo que conhecemos hoje.”

Ana Fontes, presidente do Instituto Rede Mulher Empreendedora, observou o grande número de pessoas que empreendem por falta de alternativas à atual crise econômica, sobretudo mulheres negras, que tiveram sua realidade ainda mais agravada pelos efeitos da crise sanitária.

“Retrocedemos 30 anos em um com o aumento da violência doméstica e da sobrecarga do trabalho doméstico e do cuidado com os filhos e familiares”, observou.

Pesquisa realizada pelo Instituto com duas mil empreendedoras para entender os impactos da pandemia reporta essas questões, mas chama atenção pelo papel do empreendedorismo na vida dessas mulheres, como explicou a presidente.

“Para 40%, essa é a única fonte de renda da família. Em razão de um perfil mais proativo, essas mulheres buscaram caminhos para manter seu negócio na ativa, seja se capacitando e digitalizando, seja inovando de diferentes formas. Concluímos com isso que, apesar de serem mais afetadas, elas buscam mais a solução, justamente porque sabem que não encontrarão espaço no mercado de trabalho e, por isso, têm o negócio como essência de vida.”

Amanda Aragão, diretora de Empresas e Mercados do Instituto Mais Diversidade, chamou atenção para as interseccionalidades e disparidades que marcam a realidade das mulheres no mundo do trabalho.

“Em uma situação de crise, os retrocessos chegam primeiro e de modo mais intenso para as mulheres. As mulheres negras ocupam posição de destaque entre as trabalhadoras informais. 50% estão fora do mercado de trabalho após um ano da licença maternidade. Em relação à equidade salarial, elas ganham 20% a menos, dado que pode chegar a 59% no caso das mulheres negras. É um problema estrutural do mercado.”

Para Adriana, as oportunidades para fomentar a geração de trabalho e renda via empreendedorismo passam pelo enfrentamento do racismo que estrutura a sociedade brasileira.

“A primeira coisa é assumir que somos um país racista. A partir daí, é necessário definir ações para enfrentar esse racismo com o envolvimento da sociedade civil, do setor privado e do poder público. Isso precisa acontecer no nível individual, como, por exemplo, ajudando a construir uma educação antirracista dentro de casa, mas também no institucional, contratando mais pessoas negras. É preciso coragem, afinal, é um problema de todos nós.”

Maria Antonia Aguiar Lima, presidente da Associação de Mães do Rio Grande (São Luís/MA), dividiu com os participantes do painel perspectivas a partir de seu lugar de artesã e empreendedora.

A Associação é parceira da Alumar e do Instituto Alcoa em projeto que viabiliza a produção e comercialização de produtos oriundos da fibra natural do buriti, palmeira originária da região. Com a fibra, as artesãs produzem redes, sandálias, chapéus, carteiras e outros acessórios.

Para dona Antonia, as mulheres devem exercer seu lugar de protagonismo na geração de renda da família.

“O homem tem que baixar o machismo dele. Nossa comunidade se sente maravilhada por essa oportunidade. Tem melhorado a situação das mulheres”, celebrou a empreendedora.

Ela explicou ainda que está nos planos da Associação ampliar a participação de mais mulheres para aumentar o trabalho e a renda de outras famílias da comunidade.

“Tem gente com muita coisa boa dentro de si e, com apoio, pode colocar no mundo.”

Para Amanda, do Instituto Mais Diversidade, empreender pode ser um caminho potente de formação da identidade e geração de autonomia, não só financeira.

“Pode ser uma forma de colocar seu melhor no mundo, mas, muitas vezes, vem como consequência ou resposta ao fato de o mercado de trabalho virar as costas para essas mulheres negras, trans, mães, etc. Embora tenhamos exemplos de empreendedoras bem sucedidas, ainda estamos deixando muitas mulheres para trás. Precisamos agir para que elas possam escolher seu caminho, não por falta de alternativas, mas por sua potência.”