30 de junho de 2021

Empreendedorismo passa por valorização de tradições e saberes locais e engajamento comunitário


Atividades do último dia do Festival da Cultura Empreendedora trouxeram convidados que mostraram que não há idade para começar a debater empreendedorismo. Ações com crianças e jovens ajudam a desenvolver esse olhar desde cedo.

 

Festival dia 3
O dia de encerramento da primeira edição do Festival da Cultura Empreendedora, realizada nos dias 23, 24 e 25 junhos, debateu as inúmeras formas de jovens empreenderem na sociedade: em seus projetos de vida, nas empresas onde trabalham, em projetos sociais, na carreira acadêmica, em negócios de impacto e diversas outras possibilidades, todas elas usando atitudes e habilidades como criatividade, inovação, organização, planejamento e liderança.

A primeira mesa do dia, que teve como tema “Empreendorismo jovem e a Educação básica no Brasil” e contou com  abertura de Helder Teixeira, diretor de operações da Alumar, trouxe exemplos reais de iniciativas que olham e incentivam o desenvolvimento do empreendedorismo a partir da educação. Monica Espadaro, gerente de projetos do Instituto Alcoa, reforçou que o contingente recorde atual de jovens que compõem a população brasileira irá diminuir nos próximos 20 anos, acarretando o envelhecimento da população. 

Por isso, deixou a provocação: o que o investimento social privado, as organizações da sociedade civil e a sociedade podem fazer para estimular o empreendedorismo juvenil a partir de agora e incentivar que cada vez mais jovens acessem recursos para iniciar sua jornada empreendedora? 

Empreendedorismo na infância 

Esse início no mundo dos negócios pode começar muito antes do que algumas pessoas pensam. Lindomar Stivanin, coordenadora da escola municipal Daura Dagmar Lobo, em Andradas (SP), conta que as atividades do projeto Daura Empreendendo Sonhos e Planejando Ações (DESPA) envolveram crianças a partir dos quatro anos. 

Segundo a coordenadora, é comum encontrar moradores da zona rural que não valorizam o espaço onde vivem e, por isso, buscam oportunidades nas cidades. Dessa forma, o DESPA teve como objetivo resgatar as tradições e potencialidades da comunidade rural a partir de diferentes estratégias, como o mapeamento das produções dos empreendedores no meio rural e um levantamento e inspiração dos sonhos de vida das crianças. 

“As crianças falam de uma maneira delicada e meiga e acredito que não podemos subestimá-las. Fizemos projetos muito legais de sustentabilidade porque percebemos que o empreendedorismo vai muito além do que projetar um futuro de arrecadação de dinheiro, mas também envolve a sobrevivência, que não é possível sem o cuidado com o meio em que estamos. Além de abordar as tradições, também falamos sobre aspectos que as crianças deixaram de valorizar, como as frutas que dão na beira da estrada e o uso do leite da vaca para fazer geladinho. Tudo isso como fonte de renda e valorização. Assim, elas começaram a se encantar com o meio em que estão inseridas”, comentou Lindomar. 

Capacitação de jovens e famílias 

A valorização local também é um aspecto abordado pelo projeto Plantando Sementes, realizado em São Luís (MA). Sâmara Viegas, gestora da Escola Casa Familiar Rural do Maranhão, espaço construído pela Alumar e gerido pela Secretaria de Educação Municipal de São Luís, explica que o empreendedorismo foi inserido na grade curricular da instituição, que trabalha com a pedagogia da alternância, ou seja, os alunos passam duas semanas em casa e duas semanas na escola. 

Entre diversos projetos realizados visando a valorização da comunidade, o Plantando Sementes, com parceria do Instituto Alcoa, implementou produções nos quintais das casas dos estudantes, como tanques de piscicultura, aviários e plantações. 

A capacitação para o cuidado com os animais e disseminação da cultura empreendedora, entretanto, foi além dos próprios estudantes e envolveu também os familiares. Todos receberam instruções e formação para manejar os produtos e disponibilizá-los com qualidade para a venda em feirinhas organizadas em diversos locais, como na escola e em frente à Secretaria de Educação. 

Empreendedorismo no currículo 

Aluísio Cavalcante, cofundador da organização Casa da Árvore, de Poços de Caldas (MG), trouxe uma reflexão que se conecta com a experiência de Sâmara: o fato de que, quando uma disciplina é incluída no currículo, todo o sistema da política pública mostra-se mais favorável àquele tema. Assim, o desenvolvimento de projetos de cultura empreendedora dentro da escola pode ser o pontapé inicial de inovação de toda uma comunidade, com diversas pessoas pensando e ressignificando suas vidas, com habilidades e competências que vão além do mundo dos negócios.  

Por isso, é interessante que o trabalho com empreendedorismo seja incluído nos projetos político-pedagógicos (PPPs) das escolas, documentos que materializam a cultura daquela instituição, independente da gestão vigente. “Quando as escolas constroem essa prática de aprendizagem e empreendedorismo, elas trazem novos ares para o papel do professor como mediador e dos alunos enquanto pessoas em busca de autonomia e de encontrar os próprios caminhos. Ao usar tudo isso para compor o PPP da escola, estamos construindo uma cultura de aprendizagem para cidadania.” 

O especialista deixou clara a importância de organizações sociais engajadas no tema discutirem a cultura empreendedora também do ponto de vista de posicionamento político, abordando aspectos como precarização do trabalho e das relações trabalhistas. 

A potência de um jovem inspirador 

A mesa também contou com a participação de Samuel Costa Matos, estudante do Ensino Médio em Juruti (PA), que inspirou ao dividir sua trajetória com o público. Ainda no Ensino Fundamental, o estudante começou a pensar em quais ações poderia realizar para ajudá-lo a alcançar seu sonho de cursar Engenharia na universidade. Samuel conta que sempre se identificou muito com as disciplinas de Matemática e Ciências. Para além disso, considera importante a participação em outros projetos, uma vez que segue à risca a frase de sua mãe de que as pessoas não ficam o tempo todo na escola. 

Por isso, além de estudar, tirar boas notas e participar de competições e olimpíadas - com direito a medalha de ouro em uma competição de Ciências e menções honrosas em outras ocasiões -, o jovem tem uma intensa participação em projetos sustentáveis, como a coleta de óleo e fabricação de sabonetes e outras iniciativas sociais, servindo de inspiração para os colegas. 

“Não vivemos um período fácil e, às vezes, bate vontade de desistir. A falta de estímulo tem feito com que muitos jovens saiam do país. Os números de fuga de cérebros são altíssimos. O que esses jovens encontram lá fora que não encontram aqui? Precisamos ter um projeto, um sonho e, a partir de um planejamento, usar aquilo que já temos ao nosso redor para nos construirmos. Tenho colegas tímidos e outros não tão envolvidos com os estudos que me dizem que sou inspiração. Mas eu deixo claro que todos nós podemos brilhar. Quanto mais lâmpadas acesas, melhor ficará esse brilho para a realidade do Brasil”, compartilhou Samuel. 

Transformar é preciso

O painel de encerramento do Festival da Cultura Empreendedora contou com a participação de Fausto Cruz, presidente do Instituto Alcoa e de Elizandra Cerqueira, presidente da Associação das Mulheres de Paraisópolis.

Filha de nordestinos, periférica e sobrevivente da violência doméstica, Elizandra poderia ser mais um número nas estatísticas, mas se tornou empreendedora e ativista social para atuar na realidade da segunda maior favela da cidade de São Paulo, composta por mais de 120 mil habitantes, dos quais mais da metade são mulheres.

“80% dos moradores de Paraisópolis são nordestinos. A história se repete para a maioria: migraram para São Paulo fugindo da pobreza e da seca e em busca de emprego e uma condição melhor para os filhos. Metade da população é de mulheres, sendo que metade delas são chefes de família e muitas cumprem um papel muito importante dentro da comunidade, atuando na linha de frente das questões”, explicou a ativista.

Elizandra começou sua atuação como agente comunitária ainda na adolescência, organizando o grêmio estudantil de sua escola.

“Ninguém planeja ser liderança comunitária, simplesmente acontece. Eu moro em Paraisópolis desde um ano de idade. Estudei minha vida toda na escola pública da comunidade. Quem vive na periferia sabe que, muitas vezes, o ensino é a única oportunidade de transformar sua história e realizar seus sonhos.”

Elisandra é uma das fundadoras do projeto Mãos de Maria Brasil, negócio social que combina cursos de culinária, bistrô e horta orgânica e incentiva o empreendedorismo feminimo como caminho para a autonomia financeira das mulheres de Paraisópolis. O projeto já formou e empregou mais de 3,5 mil mulheres.

“Nós começamos a perceber que boa parte das mulheres que vinham à Associação pedir ajuda para sair de uma situação de violência dependiam financeiramente do agressor e tinham dificuldades para se inserir no mercado de trabalho por terem se tornado mães jovens e tido que parar de estudar. O nome Mãos de Maria surgiu porque na primeira turma do projeto, em 2019, mais da metade tinha Maria no nome. E faz muito sentido também, pensando que Maria pode ser tida como a primeira mãe solo.”

Pandemia e perspectivas para o futuro

Elisandra conta que com a pandemia, o projeto disponibilizou todo o conteúdo das formações de modo online para as mulheres. Pelo WhatsApp, elas puderam aprender a produzir marmitas para vender durante o período de distanciamento social.

“Começamos a ver muitas mulheres sendo demitidas e tivemos que nos adaptar para continuar apoiando, ao mesmo tempo em que precisamos parar a operação do bistrô. Com essa adaptação, pudemos contribuir com a doação de mais de um milhão e meio de marmitas a comunidades vulneráveis, inclusive de outros estados.”

A empreendedora celebra os frutos do projeto, que se tornou referência internacional, sendo disseminado por veículos de países como Estados Unidos, Coreia, Austrália e França como exemplo do engajamento das mulheres nas operações de enfrentamento à pandemia.

Atualmente, o projeto Mãos de Maria está em busca de parceiros que possam apoiar a expansão do negócio, que já está em curso, como conta Elisandra.

“Estamos furando a nossa bolha e levando a operação completa com curso, bistrô e também as marmitas solidárias para outras comunidades, tanto de São Paulo, como Heliópolis, como de outros estados, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Maranhão e Pernambuco. Para isso, temos buscado parceiros que nos ajudem a impactar mais mulheres com esse trabalho em rede que envolve muitas mãos e Marias.”