26 de maio de 2021

Olhar para questões sociais como gênero e raça é fundamental para debater geração de trabalho e renda, defende especialista


Em entrevista ao Instituto Alcoa, Cecilia Zanotti, gerente da ANDE no Brasil, reforçou a potência de inovação produzida nas periferias e a importância de geração de emprego e renda ser política pública com foco prioritário nas populações mais vulneráveis. 



Entrevistas IA cecilia*Essa é a primeira reportagem da série de entrevistas com especialistas com o objetivo de aprofundar debates sobre temas de atuação do Instituto Alcoa: Geração de Trabalho e Renda, Educação e Engajamento social. A cada mês, uma nova entrevista será publicada no site e no Facebook do IA. Acompanhe e divulgue. 

 

De acordo com o estudo O Futuro da Inclusão Produtiva no Brasil: da emergência social aos caminhos pós-pandemia, produzido pela Fundação Arymax, o novo coronavírus produziu efeitos desiguais na população brasileira e, com isso, contribuiu para desvelar e aprofundar as desigualdades brasileiras. 

Alguns grupos, como a população negra, por exemplo, sentem mais os impactos da pandemia do que outros em razão de uma série de direitos que historicamente não são garantidos a essas pessoas, tais como moradia, saúde, educação, emprego, entre outros. O estudo mostra a segregação de mulheres e homenes negros no mundo do trabalho, com elevada participação em postos informais.

Considerando esse cenário, um dos pilares de atuação do Instituto Alcoa desde sua fundação no Brasil em 1990, o tema da geração de trabalho e renda ganhou ainda mais relevância. Juntamente com educação, a agenda se coloca como estruturante para promover o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e menos desigual.

Ao pautar sua atuação na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), o IA desenvolve programas, incentiva o engajamento e apoia ações juntamente com organizações sociais, escolas, poder público, voluntários e instituições parceiras em pautas como assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos (ODS 4), reduzir desigualdades dentro dos países e entre eles (ODS 10) e incentivar e promover parcerias públicas, público-privadas, privadas e com a sociedade civil eficazes a partir da experiência das estratégias de mobilização de recursos das mesmas (ODS 17).

Em 2020, o Instituto Alcoa ampliou o escopo do Programa de Apoio a Projetos Locais, recebendo - além das propostas nas áreas de Educação e Geração de Trabalho e Renda - inscrições de iniciativas voltadas ao enfrentamento da pandemia nas regiões onde atua como forma de fortalecer os territórios e impulsionar as ações emergenciais de combate ao coronavírus. Alcoa e Alcoa Foundation também somaram esforços nessa frente, destinando R$ 4 milhões a ações de ajuda humanitária.

O Programa de Apoio a Projetos Locais é uma forma de incentivar iniciativas de empreendedorismo local, por exemplo, como é o caso do projeto Dona’s, apoiado em 2019, que visa o empoderamento de pequenas empreendedoras. Além das ações apoiadas, o IA também desenvolve projetos próprios, como o Máscara + Renda, programa de geração de renda voltado a costureiras em que as máscaras produzidas são destinadas a comunidades vulneráveis. Conheça outras iniciativas do Instituto no pilar de geração de trabalho e renda.

Para aprofundar o debate em torno do tema, o Instituto Alcoa conversou com Cecilia Zanotti, gerente do escritório da Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) no Brasil, organização dedicada a apoiar pequenas empresas em crescimento e fortalecer ecossistemas de empreendedorismo.

Confira a entrevista. 

Instituto Alcoa: De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego no Brasil atingiu o maior patamar desde o começo da série histórica, em 2012. Já são mais de 14 milhões de pessoas buscando um trabalho. Na sua avaliação, a que se deve esse cenário?

Cecilia: Segundo o IBGE, passamos de um recorde na população ocupada em 2019 para o menor índice da série histórica da PNAD Contínua. Pela primeira vez, temos mais gente desocupada (50,5%) do que ocupada em idade de trabalhar. Ainda de acordo com o IBGE, quem perdeu a renda primeiro foram os trabalhadores informais, considerando estimativas de mais de 37 milhões de brasileiros vivendo na informalidade. Com as medidas restritivas, os ambulantes não tinham mais para quem vender, por exemplo. As diaristas voltaram para casa de um dia para o outro sem seguro desemprego, sem FGTS [Fundo de Garantia do Tempo de Serviço].

Instituto Alcoa: Durante todo o ano de 2020 e em 2021, estudos têm mostrado que pessoas em situação de maior vulnerabilidade econômica e social tendem a estar mais suscetíveis à contaminação pelo coronavírus, com maiores taxas entre pessoas negras e menos escolarizadas. Esse mesmo padrão se repete quando o assunto é trabalho e renda? Por quê?

Cecilia: As mulheres negras, embora sejam o maior grupo populacional (27,8%) em comparação a todos os outros, são o grupo menos representado na política, entre as lideranças e conselhos das empresas e nas posições de poder. Elas são maioria nas favelas (5,2 milhões, de acordo com o Data Favela) e lideram boa parte dos piores indicadores sociais. Esse é o grupo mais afetado também pelo desemprego. A CUFA [Central Única das Favelas] esclarece bem esse impacto. Imagine uma mãe de uma comunidade vulnerável que perde o emprego, precisa lidar com os filhos em casa, sem aula e merenda escolar. Falta renda, tem mais gente comendo todas as refeições em casa e sem a merenda da escola. Imagine também que faltou dinheiro para pagar a internet e, por isso, ela não consegue mais usar o celular como seu ganha-pão. Não pode responder para fazer uma faxina, uma unha. 

Instituto Alcoa: Quando falamos em raça, uma das diretrizes da atuação da ANDE, o que é preciso ter em mente para promover mais equidade de oportunidades no mercado de trabalho para pessoas negras e indígenas, por exemplo?

Cecilia: A primeira etapa é olhar para dentro e medir. Quantos são? Em que posições estão? Quanto ganham em comparação aos brancos? Há inúmeras consultorias e organizações experientes no assunto já atuando. Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), Gestão Kairós e Mais Diversidade são três delas. Com esses números, deve-se estabelecer metas e comunicar, contando com o engajamento das altas lideranças. Em seguida, olhar para como atrair e reter profissionais negros. Empregueafro, Empodera, Faculdade Zumbi dos Palmares, Newa e Uzoma são organizações que podem apoiar nessa etapa. Outras estratégias possíveis são letramento racial [reeducar indivíduos a partir de uma perspectiva antirracista], promoção de representatividade racial nos cargos de liderança, investimentos em formação de estudantes negros e em modelos como a Faculdade Zumbi dos Palmares e do movimento UNEAfro e promoção de oportunidades de estágio e colocação como fez o Magazine Luiza.

Instituto Alcoa: Inúmeras pesquisas mostram que as mulheres gastam mais tempo com afazeres domésticos e cuidado com os filhos, são maioria nos postos de trabalho informais e também lidam mais do que os homens com o trabalho de cuidado, pouco reconhecido e não remunerado. Quando o assunto é gênero e mercado de trabalho, quais passos ainda são necessários para avançarmos como sociedade brasileira?

Cecilia: O Brasil se posicionou em 93º entre 156 países e em penúltimo entre os países da América Latina no último ranking do relatório de gap de gênero do Fórum Econômico Mundial [Global Gender Gap Report], publicado em 2021 com dados de 2020. Os dois indicadores que derrubam a nossa posição continuam sendo, ano após ano, a baixíssima participação das mulheres na política do país e a grande diferença salarial entre homens e mulheres. Precisamos de investimentos na formação de mulheres, sobretudo negras e indígenas, para a política. Precisamos votar, contratar e eleger essas mulheres para cargos de liderança e equalizar os salários, como já é feito em inúmeros países. Além disso, é necessário promover educação e trabalho de qualidade e maior presença e participação delas nos setores que remuneram melhor. Quando essa fotografia estiver mais feminina e mais negra, a realidade mudará.

Instituto Alcoa: Qual é o papel das políticas públicas no enfrentamento aos desafios no tema da geração de trabalho e renda?

Cecilia: Precisamos diferenciar as ações realizadas no momento de emergência e multiplicá-las por todos os cantos e isso só o governo consegue fazer. Empresas e pessoas físicas doaram milhões, o que foi muito importante para financiar programas com agilidade e inovação, mas nunca será suficiente. Para atingir toda a população, precisa virar política pública. Retomar e ampliar programas como Programa de Aceleração do Crescimento das Favelas, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, Programa de Geração de Emprego e Renda e investir em postos de saúde modelo gera resultados. Também precisamos que o Brasil inteiro olhe para as favelas.

Instituto Alcoa: Considerando os desafios atuais no mercado de trabalho, qual é o papel das pequenas empresas ou microempreendedores na busca de soluções para a crise no Brasil e no mundo?

Cecilia: A ANDE trabalha com o conceito de Pequenas Empresas em Crescimento, ou seja, empresas que têm potencial e desejo de crescimento e que são capazes de gerar impactos positivos sociais e ambientais de longo prazo e gerar empregos. Existem empreendedores que conseguem gerar soluções para a falta de trabalho e renda em plena crise e crescer. Um bom exemplo é o caso da Celcoin, uma fintech que usa a tecnologia para expandir o acesso de pessoas aos serviços financeiros. Em dezembro de 2020, atingiu 33 mil correspondentes bancários e está presente em mais de três mil cidades do país.

Empresas desse porte são responsáveis por uma grande quantidade de empregos nos países. No Brasil, segundo os dados do Cadastro Central de Empresas, em 2018, as empresas com até quatro colaboradores representavam 72% do total de empresas e aquelas com cinco a 249 colaboradores assalariados representavam 28% do número total de empresas e 42% da força total de trabalho das empresas no país. No mundo não é diferente. O Banco Mundial descobriu que empresas de alto crescimento representam entre 3 e 20% das empresas dos setores de manufatura e serviços, embora sejam responsáveis por mais de 50% dos novos empregos nessas indústrias. Portanto, investir no ecossistema de apoio às Pequenas Empresas em Crescimento, com olhar específico para os recortes de raça e gênero, pode representar um belo atalho para a recuperação econômica do país.