30 de junho de 2021

Marcada por testes, adaptações e persistência, jornada empreendedora pode começar de forma pequena e simples


Segundo dia do Festival da Cultura Empreendedora trouxe exemplos de pessoas reais que se aventuram no universo empreendedor e as principais dificuldades que enfrentam, em muitos casos relacionadas ao medo e falta de informações.

Festival dia 2

Ao reforçar o debate sobre geração de trabalho e renda enquanto tema prioritário da atuação do Instituto Alcoa, sobretudo considerando as desigualdades socioeconômicas entre diferentes regiões do Brasil, Gênesis Costa, gerente geral da Alcoa Juruti, deu as boas-vindas aos participantes do segundo dia do Festival da Cultura Empreendedora.

Realizado pelo Instituto Alcoa nos dias 23, 24 e 25 de junho, o evento contou com painéis, mesas e oficinas que reuniram especialistas e representantes de diferentes segmentos da sociedade para debater caminhos e respostas possíveis para ampliação do acesso a trabalho e renda no país em um cenário agravado pela pandemia de Covid-19. 

As atividades desenvolvidas ao longo do dia contaram com mais de 300 participações em debates e oficinas que reforçaram o fato de que toda e qualquer pessoa pode empreender a partir de suas competências e habilidades pessoais. 

Empreendedor por acaso 

A mesa de abertura “A cultura empreendedora na diversidade regional do país” contou com a participação do advogado Marco Noronha, que, quando casou e mudou-se de casa, notou a ausência de um serviço de personalização de quadros para decoração. Os comentários positivos de familiares e amigos sobre seu ‘quadro teste’ incentivaram que ele desse o próximo passo e criasse a Plah Artes, em Poços de Caldas (MG). 

“O negócio começou pequeno, na garagem da minha casa, e hoje vendemos quadros personalizados para todo o Brasil. Isso é o legal da internet: o reconhecimento vem de pessoas até de outros estados. O começo é mais difícil, pois o mundo digital muda muito, você começa a trabalhar com uma ideia, mas o que eu sempre digo é para se deixar moldar. Se o seu cliente está mudando, você precisa se reinventar também”, explica. 

Flavia Mota, especialista em maquiagem e penteados e fundadora do Studio Flavia Mota, em São Luís (MA), contou que sua trajetória empreendedora também começou de forma despretensiosa, maquiando e oferecendo dicas de maquiagem para as amigas. Hoje, já são mais de cinco mil atendimentos realizados a partir de um método próprio. A jornada, entretanto, não foi linear e precisou de ajustes de rota. 

“Eu vendo um serviço que exige presença e troca humana. Com a pandemia, os eventos foram suspensos. Nos três meses que fiquei em casa, analisei o que poderia ser feito e decidi criar uma rifa de uma maleta de maquiagem, com produtos comprados a preço de custo com uma amiga. Comprei um bloco, criei um carimbo e fui vendendo os números pelo WhatsApp para os nossos clientes. Todos perguntavam como nós estávamos e a maioria comprava pelo menos dois números. A renda gerada me surpreendeu e possibilitou que adaptássemos o espaço e comprássemos equipamentos de proteção individual para retomar o trabalho no salão”, conta Flavia. 

Potência do trabalho em grupo 

Randolfo Veiga da Silva, gestor de projetos do Sebrae em Juruti (PA), compartilhou que seu contato com o empreendedorismo começou cedo e de forma curiosa, ao trocar uma manga de seu quintal por um sorvete. Ao longo da vida, teve outras experiências, como na loja de material elétrico de seu pai e em sua empresa de despacho aduaneiro, e há 25 anos trabalha junto ao Sebrae orientando empreendedores. 

“Existe aquela frase: ‘um grupo unido jamais será vencido’. Trabalhar junto não é tarefa fácil, mas representa uma oportunidade garantida de aprendizagem, uma vez que todos podem aprender com as capacidades e habilidades do outro. No nosso grupo de produtores de mandioca em Juruti, buscamos o impacto econômico positivo para os empreendedores e que a comunidade se veja como agente transformador de sua realidade. Incentivamos que eles façam diálogos constantes e parcerias efetivas e que, com isso, tenhamos melhoria dos indicadores sociais.” 

Mulher negra: o rosto do empreendedorismo brasileiro

Todo o debate foi conduzido por Mariana Rodrigues, consultora da Aliança Empreendedora, organização que oferece apoio a microempreendedores de baixa renda. Ao mesmo tempo em que muitos negócios foram fechados com a pandemia, outros tantos foram abertos. Alguns desses se enquadram na categoria de empreendedorismo por necessidade, isto é, pessoas que perderam sua fonte de renda e precisam descobrir novas formas de obter recursos para sobreviver. Entretanto, muitos negócios que têm esse início comum geram frutos com o passar do tempo, conforme explica a consultora.

“Taxas e pesquisas nos mostram que o empreendedorismo brasileiro é negro e feminino e muito marcado pela importância do teste. Ou seja, testar e, dentro de um planejamento mínimo, correr riscos. Trazer exemplos reais é importante para desmistificar que empreender é difícil ou que é necessário um monte de dinheiro e aparecer na capa da revista de gravata. Empreender vai muito além disso e tem gente que começa com 30 reais no bolso”, defendeu. 

Os participantes também debateram o fazer empreendedor nas redes sociais - considerando a grande potencialidade de alcance na internet -, a importância de o negócio oferecer um diferencial ao cliente, a criação de um negócio atrelado a um propósito, além da necessidade de busca constante por informação e capacitação, que, muitas vezes, são gratuitas na internet ou em organizações como o Sebrae. 

Rodada de ideias 

O segundo dia do evento também contou com uma rodada de ideias com empreendedores do universo Alcoa. Mediada por Carlos Cantos, diretor tesoureiro do Instituto Alcoa, a mesa trouxe a história de quatro colaboradores da empresa, reforçando a ideia de que empreender vai muito além de criar um negócio, mas também pode se configurar como empreender seu projeto de vida em uma empresa, investir em seu desenvolvimento pessoal no plano de carreira e muitas outras possibilidades. 

- Fabio Martins, gerente da refinaria da Alcoa em Poços de Caldas, explicou que começou a carreira na empresa aos 20 anos e já passou por diversas áreas e cargos. Apesar de ser engenheiro, preferiu seguir caminho na área comercial, onde pode trabalhar com culturas de negociação diferentes. Apesar de já ter uma carreira consolidada na área comercial, buscou novos desafios na área operacional da empresa, o que significou uma mudança grande em sua carreira.

“Tive bastante humildade para reconhecer que não era minha área de atuação, mas que estava disposto a aprender. Estou há 23 anos na Alcoa, mas passei por diversas funções, tendo novas experiências e aprendizados, arriscando sempre e saindo da zona de conforto. E é essa dica que deixo para as pessoas.”

- Roxane Rosa, química no laboratório da Alcoa em Poços de Caldas, contou que é empreendedora desde criança. Ao longo da vida, já vendeu pulseiras, trufas e sabonetes personalizados para festas, o que abriu o caminho para que criasse uma empresa dedicada à papelaria de festas.

“Quem quer ser empreendedor precisa ter planejamento e organização. Quem não se planeja, perde tempo e dinheiro. Temos os sonhos das pessoas nas mãos e elas sempre vão querer o melhor. Por isso, faça o seu melhor e faça bem feito”, defendeu. 

- Francisca Fontes, analista de relações institucionais da Alumar, em São Luís, conta que desde que chegou na comunidade, sentiu um chamado para ajudar da forma que podia, seja reservando uma parte de seu salário para ações comunitárias ou doando brinquedos junto à sua família para crianças do interior do Maranhão. Fran, como é chamada, também reforçou que o trabalho voluntário pode ser disponibilizar tempo para ouvir alguém, sobretudo em tempos de pandemia, período que teve influência direta na saúde mental das pessoas. 

- Andreia Fortunato, compradora especialista de Juruti, também mostrou uma outra possibilidade do empreendedorismo: o investimento pessoal no estudo e carreira. Desde jovem, dava aulas de piano e confeccionava pulseiras de macramê para vender. Ao se mudar para o Rio de Janeiro, queria cursar pós-graduação no Ibmec, instituição privada de ensino superior, mas não podia arcar com os custos da mensalidade. Foi quando decidiu se oferecer para trabalhar na própria faculdade para que pudesse estudar. Em Juruti, Andreia participa de ACTIONs e ações de voluntariado realizadas pelo Instituto Alcoa, sendo uma das voluntárias que orienta mulheres empreendedoras no projeto Donas. 

Pensar, escrever, agir 

A parte da tarde foi destinada à oficina “Teoria do Fazer: um passo a passo para tirar ideias do papel”. Fran Fernandes, empreendedora social da A Guarda-Chuva e membro do Conselho Consultivo de Relações Comunitárias da Alcoa Poços de Caldas, deu início à atividade abordando a teoria do Effectuation, de autoria da professora Saras Sarasvathy, da Darden School of Business, na Universidade de Virginia (EUA), a partir de uma analogia entre o ato de empreender e cozinhar. 

Existem duas possibilidades: pensar em um prato, comprar ingredientes e prepará-lo ou checar os ingredientes disponíveis em casa e preparar algo com eles, sem saber ao certo como será o resultado final. Saras estudou o comportamento de alguns empreendedores e conversou com cerca de 30 líderes de grandes empresas e descobriu que grande parte dos empreendedores começa seu caminho sem saber ao certo o resultado final, além de possuírem características comuns, como resolver problemas, flexibilidade e adaptação. 

Esses aprendizados e observações foram organizados na teoria do Effectuation, ou seja, ‘ir fazendo’, que se baseia em cinco princípios. Um deles é o do ‘pássaro na mão’, ou seja, o fato de que dá para começar a empreender com coisas básicas. Para isso, um ponto de partida interessante é responder três perguntas: quem eu sou enquanto pessoa, o que eu sei em termos de conhecimentos gerais e quem eu conheço/quais redes eu acesso.

Outro princípio apresentado durante a oficina foi o de mapear as perdas toleráveis. Isso significa que uma pessoa que está começando a empreender deve estabelecer o que está disposta a investir - seja em termos de dinheiro ou tempo - e, se a ideia não der certo, não haverá prejuízo. 

Uma das atividades práticas propostas foi a do ‘curtigrama’, um exercício baseado em um diagrama dividido em quatro partes: coisas que curto e faço, curto e não faço, não curto mas faço, não curto e não faço.

“O exercício é interessante, pois essas primeiras informações básicas são ótimos insights de onde podemos começar a caminhar para desenvolver um novo empreendimento, novas ideias. Outra possibilidade é cruzar os gostos mapeados no ‘curtigrama’ com a agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [ODS], ou seja, como as coisas que eu gosto se relacionam a desafios do mundo e em quais causas gostaria de contribuir”, exemplificou Fran. 

Felipe Milani, sócio-diretor do Clube de Empresários, também em Poços de Caldas, apresentou o raciocínio por trás da sigla MVP, que significa mínimo produto viável. “O MVP é, em linhas gerais, colocar algo em prática a partir daquilo que você já tem. Imagina desenvolver um plano com várias etapas e dinheiro investido e, ao final, o resultado não era o que seu chefe ou cliente queriam?”, problematizou o empreendedor. 

Investir em um MVP é interessante pois a devolutiva do cliente sobre o produto ou serviço permitirá que o empreendedor melhore sua ideia. Nesse sentido, a etapa de teste é indicada para toda e qualquer pessoa, pois permitirá aprendizados e, com isso, o empreendedor segue o chamado ciclo do aprendizado e lógica do sucesso, ou seja: ter uma ideia, desenvolver hipóteses e testá-las na prática.  

“Devemos enxergar a importância de fazer testes pequenos e, para isso, não precisa de muitas pessoas. É um processo de fazer melhorias antes do lançamento. O MVP pode mudar sua trajetória”, explicou Felipe.