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Junho 17, 2009

Ideias que saÃram do papel

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VeÃculo: Revista Carta Capital -SP
Indústrias extrativas trabalham para fazer com que a construção de seus empreendimentos se converta em desenvolvimento sustentável para as comunidades locais. Financiadores de grandes projetos, bancos utilizam critérios socioambientais para conceder crédito. PetroquÃmicas exploram novas fronteiras tecnológicas em busca de matéria-prima renovável. Fabricantes de embalagens analisam o ciclo completo de vida de seus produtos para reduzir o impacto sobre o meio ambiente. Redes de supermercados investem em lojas ecoeficientes e na disseminação de conceitos sustentáveis ao longo da cadeia de suprimentos. Esses são alguns exemplos de práticas sustentáveis adotadas por empresas brasileiras com resultados reais e que vão muito além do simples marketing verde.
No coração da Amazônia, a 850 quilômetros de Belém, Juruti tem população de 35 mil habitantes. Do total, 65% vive em comunidades rurais e tira a maior parte do sustento do cultivo da mandioca, da pesca e da pecuária. Com um dos maiores depósitos de bauxita de alta qualidade do mundo – a principal matéria-prima usada na fabricação de alumÃnio –, a cidade paraense vive dias de expectativa. Provavelmente em setembro, quando for totalmente implementado, o Projeto Juruti, que engloba investimentos superiores a 2,5 bilhões de reais em um complexo formado por mina, ferrovia e porto, não apenas aumentará a capacidade de produção da multinacional Alcoa, como deverá se converter em exemplo de projeto sustentável na indústria de mineração mundial.
Desde o inÃcio do projeto, várias reuniões preliminares e audiências públicas foram realizadas com lideranças comunitárias, instituições públicas e privadas em Juruti, Santarém e Belém. A partir desse diálogo, criaram-se programas que abrangem desde ações ambientais, como o monitoramento do ar e da água e a conservação da fauna e flora, até iniciativas de segurança pública, valorização da cultura local e apoio à elaboração do Plano Diretor do municÃpio.
A parceria com a comunidade local se estreitou em agosto de 2008 com a instalação do Conselho Juruti Sustentável, formado por três representantes da Alcoa, três do Poder Público e nove da sociedade civil. “O conselho, que tem maioria da sociedade civil, é um espaço de diálogo, de forma a construir soluções para os problemas e resolução de controvérsias. Nos momentos em que as pessoas sentem a ausência do Estado, é um espaço que ajuda a resolver impasses. Quanto mais diálogo, mais chance de o projeto seguir um caminho corretoâ€, diz Fabio Abdala, consultor de sustentabilidade da Alcoa.
Além do conselho, o projeto inclui uma parceria com a FGV para a elaboração de indicadores que possam medir o desenvolvimento local e a criação de um fundo financeiro. O objetivo é captar recursos para que a própria cidade, a longo prazo, possa administrá-los e estabelecer suas prioridades. “Os indicadores de sustentabilidade, que serão definidos no segundo semestre, permitirão à sociedade da região monitorar abertamente o desenvolvimento local e definir as suas prioridades de acordo com os resultadosâ€, afirma Abdala.
Desde 2007, seguindo a polÃtica da matriz de investir mais em sustentabilidade, a Tetra Pak tem elevado o aporte de recursos em meio ambiente. Em 2007, foram investidos 5 milhões de reais. No ano passado, 8 milhões de reais e, em 2009, o total deve alcançar 10 milhões de reais, diz o diretor de meio ambiente da empresa, Fernando von Zuben. O foco da fabricante de embalagens é analisar todo o ciclo de vida de seus produtos para reduzir os impactos de produção ao longo de toda a cadeia, da fabricação do papel, certificado pelo selo de manejo florestal socioambiental correto, à destinação final das embalagens. “Hoje buscamos atuar na coleta seletiva e na reciclagemâ€, afirma o executivo.
As embalagens podem ser transformadas em caixas de papelão, telhas e placas para a construção civil, canetas, vassouras. Hoje, mais de 30 empresas reciclam embalagens da Tetra Pak, gerando empregos e renda em uma cadeia de reciclagem que cresce ano a ano no PaÃs. Em 1998, quando se iniciou o projeto, o volume reciclado atingiu mil toneladas. Dez anos depois, já está em 53 mil toneladas. “Nosso foco atual é trabalhar na coleta seletiva, incentivando cooperativas de coletores e cidades para que tenham mais centros de triagem.â€
Em 1995, 80 cidades brasileiras realizavam coleta seletiva de lixo. Esse número hoje pulou para 450, abrangendo cerca de 25% da população urbana brasileira. A Tetra Pak tem atuado também para disseminar mais informações sobre reciclagem. No inÃcio de 2008, disponibilizou o primeiro buscador especÃfico de pontos de coleta seletiva e reciclagem de embalagens longa-vida (caixas de leite, sucos, molhos de tomate e outros alimentos) a partir da internet. Em treze meses, registraram-se 126 mil acessos, quase 10 mil acessos mensais. “Os números nos surpreenderam e apontam que existe necessidade de se obter esse tipo de informaçãoâ€, comenta Zuben. A partir do mapeamento da cadeia de reciclagem no Brasil, com o site, a empresa divide o conhecimento com todos os interessados no assunto, uma forma de disseminar o conceito da coleta seletiva e aumentar o volume de material pós-consumo reciclado.
A inovação tecnológica também contribui para mitigar impactos ambientais. O mais competitivo produtor de etanol do mundo, o Brasil passa por uma revolução na área petroquÃmica, com as empresas buscando produzir polÃmeros verdes. A Braskem deu inÃcio, em abril, à s obras da primeira unidade industrial do mundo a usar etanol de cana-de-açúcar para a produção de eteno e polietileno de origem 100% renovável. Serão investidos 500 milhões de reais na unidade industrial no Polo de Triunfo (RS). “Espera-se que os clientes paguem de 20% a 30% a mais na média do que na resina tradicional. Alguns clientes, como fabricantes de cosméticos, podem pagar até 50% a mais pelo produto diferenciadoâ€, comenta o diretor de competitividade e inovação, Antonio Queiroz. Uma grande vantagem da inovação é que cada quilo de polietileno verde produzido captura e fixa até 2,5 quilos de dióxido de carbono na atmosfera, colaborando com a redução do efeito estufa e do aquecimento global.
Outra gigante da área de energia e petroquÃmica que atua para reduzir o impacto de sua produção é a Petrobras. O ano 2000 foi um divisor de águas na estatal. Em 16 de julho daquele ano, 4 milhões de litros de óleo foram despejados em rios do Paraná, por causa de ruptura na tubulação de uma refinaria. O acidente ocorria pouco mais de seis meses após um derramamento de óleo na BaÃa de Guanabara. Os episódios fizeram com que, a partir daÃ, a empresa reforçasse seus investimentos em gestão ambiental e ampliasse os recursos nos projetos ambientais.
Entre 2008 e 2012, a Petrobras pretende investir 500 milhões de reais em iniciativas de seu programa ambiental no Brasil, cujo tema é água e clima, com atuação em três linhas: gestão de corpos hÃdricos, preservação de espécies e fixação de carbono e emissões evitadas. Em 2008, foi realizada a terceira seleção pública dos projetos, que contemplou 47 de quase mil propostas inscritas. “Apenas esses projetos, que deverão ser assinados em agosto deste ano, receberão 60 milhões de reais para iniciativas a ser desenvolvidas até 2010â€, diz a gerente de programas ambientais, Rosane Aguiar.
Todos os projetos têm seus indicadores avaliados e são monitorados frequentemente pela Petrobras para apurar se estão dentro das metas estabelecidas. “Os indicadores ambientais foram sistematizados em 2008 e neste ano serão compilados em um único banco de dadosâ€, diz a gerente. A Petrobras também apoia ações de preservação da biodiversidade marinha da costa brasileira, que possui entre 10% e 20% das espécies catalogadas no mundo, com iniciativas de preservação ambiental de tartarugas marinhas, peixe-boi e golfinhos, entre outros.
Apesar dos avanços, recentemente a estatal viu-se envolvida em uma polêmica a respeito da produção de diesel menos poluente. Resolução de 2002 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) estabelecia que, a partir de janeiro de 2009, deveria ser fabricado diesel com teor de 50 ppm de enxofre, menos poluente que o atual. Impasses entre a empresa, a indústria automobilÃstica e o poder público fizeram com que o Ministério Público tivesse de intervir para buscar uma solução para a questão. Em outubro, foi assinado acordo público fixando que, a partir deste ano, as refinarias da estatal produzissem gradualmente diesel com menor teor de enxofre e que a indústria automobilÃstica comece a desenvolver tecnologias que consumam esse diesel e reduzam a emissão de poluentes na atmosfera.
No varejo, a busca pela sustentabilidade também vem crescendo. No fim de abril, o Wal-Mart lançou, no bairro do Morumbi, em São Paulo, sua segunda loja ecoeficiente no Brasil. A primeira foi inaugurada em 2008, no Rio de Janeiro. Com iluminação especial no estacionamento, maior aproveitamento da luz natural na loja, reúso de água da chuva no sistema de irrigação, o hipermercado deve consumir 25% menos energia e 40% menos água. “A inauguração do Wal-Mart Morumbi reforça o compromisso da rede varejista com a sustentabilidade e marca o inÃcio de uma nova fase: a partir de agora, todos os novos hipermercados construÃdos no Brasil serão ecoeficientesâ€, afirma Hector Nuñez, presidente do Wal-Mart Brasil. A rede varejista pretende ainda cobrar dos fornecedores compromissos com a sustentabilidade. Exemplo: não comprará carne de produtores que desmatam florestas para ampliar sua criação de gado.
Para uma empresa que atua no setor de bebidas, a água é um bem extremamente precioso. No Brasil, a Coca-Cola utiliza 2,1 litros de água para cada litro de bebida produzido, incluindo o litro que vai dentro da embalagem – um dos melhores Ãndices da indústria no mundo e bem abaixo dos 5,4 litros de água por litro de bebida apurados há doze anos. Um esforço contÃnuo é o de reutilizar a água em diversas etapas da linha de produção. Boa parte das empresas que integram o Sistema Coca-Cola utiliza sistema de captação de água da chuva, que representa 2,3% da média de consumo dessas fábricas.
Combater o aquecimento global é preocupação da Natura, que, em 2007, lançou seu programa de neutralização da emissão de gases que causam o efeito estufa, cujo objetivo é reduzir em 33% as emissões da fabricante de cosméticos entre 2007 e 2011, em relação ao total verificado em 2006. Em paralelo, a empresa lançou projetos de reflorestamento e de uso de energia renovável. Em 2008, a Natura atingiu sua meta interna, eliminando 3% de suas emissões, alcançando 9% de redução desde 2007.
Grande financiador de projetos com amplo impacto sobre a sociedade, o setor financeiro também tem olhado com atenção os temas sustentáveis. Um dos pioneiros nessa área é o Banco Real, que desde 2002 adota polÃtica de riscos socioambientais para clientes empresariais. A instituição monitora licenças ambientais, disposição de resÃduos sólidos, controle da poluição do ar e tratamento de efluentes lÃquidos. Para o setor de construção civil, que responde por 40% da formação bruta de capital do PaÃs, o banco criou um programa que promove a adoção de práticas que aumentem a eficiência econômica, reduzam o impacto ambiental e favoreçam a qualidade de vida nas fases de projeto, construção e uso das edificações. O desafio agora é manter essa polÃtica na estrutura resultante da fusão com o espanhol Santander. Mas a permanência de Fábio Barbosa no comando do grupo mostra que as linhas gerais do compromisso com a sustentabilidade devem ser mantidas.
O Itaú Unibanco é outro que busca consolidar suas práticas na área. Em abril deste ano, a instituição recebeu o prêmio Emerging Markets Sustainable Bank of the Year, reconhecimento concedido à instituição financeira mais sustentável dos mercados emergentes. Logo após a fusão dos dois bancos, anunciada no ano passado, começou a se desenhar um nova polÃtica de sustentabilidade, formada com base nas experiências e compromissos dos dois bancos e aprovada em abril de 2009.
Apesar dos avanços, a população ainda desconfia das práticas de muitas empresas. Um exemplo pode ser visto em pesquisa recente do Datafolha encomendada pela ONG Amigos da Terra. A sondagem revela que os clientes de instituições bancárias não acreditam que os bancos desenvolvem medidas socioambientais realmente efetivas. Segundo a pesquisa, 89% dos clientes entendem que bancos gastam mais com propaganda do que nas ações propriamente ditas.

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