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Maio 5, 2009

Incentivo para enriquecer o diálogo

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Veículo: O Globo-RJ
Alcoa e ONG Peabiru se juntam e criam curso em Juruti que ensina sociedade civil a fazer projetos
No dia 15 de abril, trinta adultos se reuniram numa casa pequena, recém-construída, na quente Juruti (interior do Pará) e enfrentaram de novo os bancos escolares. Mas a proposta agora, em vez de uma educação formal, foi aprender a pensar em projetos que possam fortalecer a região. Para usar a expressão do momento, sobre a qual a Razão Social se debruça, a ideia é fazer de Juruti um município sustentável. Não à toa, o local inaugurado com grande expectativa dos alunos, se chama Escola Juruti de Sustentabilidade.O programa, que pretende incentivar o diálogo entre todos os atores, é fruto de uma parceria que merece atenção especial. Duas placas dispostas lado a lado na fachada da escola, avisam que aquele projeto está sendo tocado, de um lado, pelo Instituto Peabiru, ONG local que sempre foi extremamente crítica e contundente na hora de expor os impactos negativos causados pelas empresas na região. De outro, pela Alcoa, uma das líderes mundiais na produção de alumínio, que está construindo um porto, uma ferrovia e procurando bauxita bem ali, na cidade que, em média, tinha cerca de 31 mil habitantes antes da entrada da corporação, em 2005, e agora já está com 34 mil habitantes.A gente sempre teve e terá uma postura crítica.Mas não se pode deixar de ver que a Alcoa está com uma postura engajada na região. Ela tem consciência de que sua permanência por aqui será de, no mínimo, 70 anos. Isso vai causar um impacto muito grande e o objetivo da empresa é de tentar fortalecer o outro lado, a população, para conseguir um diálogo à altura disse João Meirelles Filho, um dos diretores da ONG e também um dos professores da Escola.As palestras do curso, que terá a duração de um ano, serão todas visando à criação de propostas para o Fundo Alcoa, mecanismo criado para ajudar Juruti a enfrentar tantos novos dilemas com a chegada da corporação. Os alunos são pessoas do governo local, das organizações não-governamentais da região, professores das escolas e funcionários do governo local. Este é um público, acreditam os organizadores do curso, que poderá replicar aquilo que será passado em sala de aula.Não dá para imaginar que a gente vai compactar uma educação de dez anos num curso de um ano. Vamos olhar muito a questão prática e vamos provocar os alunos a aprender a aprender. Nosso objetivo é que essas pessoas se tornem capazes de elaborar propostas, pensar projetos. Não teremos um diálogo paternalista: elas aprenderão a acessar recursos e negociar disse João.E, assim, ganham os dois lados. A população, porque consegue negociar com mais conteúdo. A empresa, porque não fica nas mãos de grupos que reivindicam de forma intempestiva e pouco clara, o que acaba envolvendo a empresa em discussões públicas que não interessam a quem se preocupa com a imagem À parte desse processo, no entanto, a Alcoa ainda está numa relação tensa com o Ministério Público, que ainda questiona a maneira como foi conseguido o licenciamento ambiental para o empreendimento como um todo.Os processos foram aprovados na via administrativa, mas na via judicial ainda correm duas ações civis públicas e o Ministério Público assiste duas ações de relação fundiária. Tudo isso tem a ver com um contencioso que anda em busca de uma solução. Mas, paralelamente a isso, temos tocado diversos projetos disse Fabio Abdalla, à frente da Alcoa na região.Segundo Abdalla, o projeto de criação da Escola surgiu de uma insatisfação muito grande com o nível da demanda com relação a ações voluntárias da empresa.Lidamos aqui com uma população que tem baixa capacidade de ser proponente de projetos disse ele.Um jeito educado de dizer que as pessoas ali não estão preparadas para pedir porque, de verdade, não sabem mesmo nem quais são seus direitos.Com uma demanda tão grande, nada impede que outras empresas da região tomem a mesma iniciativa. Segundo Rui Martins, da ONG Peabiru, que também organizou o curso, há espaço para a criação de outras turmas: O curso é voltado especificamente para desenvolvimento de projeto, captação de recursos, gestão de ONGs. E nesta região há até mesmo escolas que não conseguem ter dinheiro para a merenda porque não conseguem fazer uma prestação de contas, a gestão financeira do projeto diz ele.Fabio Abdala também concorda: será possível replicar em outros lugares, mas é preciso, primeiro, que dê certo em Juruti.Nossa estratégia foi simples: contar com uma ONG que tenha capacidade executiva, que seja crítica para ajudar a lidar com a sociedade e que já tenha feito um trabalho desse tipo. É importante ressaltar que a Peabiru não vai prestar serviço à Alcoa: a organização está se instalando em Juruti com uma doação, e nossa intenção é que a escola tenha autonomia em relação à empresa. Porque estamos falando de bens públicos, não é um serviço prestado à Alcoa.A Alcoa Foundation investiu US$ 140 mil, o curso vai de abril a novembro e tem um modelo de módulos de imersão de quinta a sábado com duas semanas de espaço entre cada um. Haverá entrega de certificados e, além do Instituto Peabiru, participam do projeto a ONG Saúde & Alegria e a Funbio.
Quem ganha Gilza Amaral, conselheira
“Quero aprender a fazer projetos para a empresa”
Como conselheira tutelar de Juruti, Gilz Amaral ampara muitos jovens e suas famílias. Ouve, queixas, tava encaminhar soluções. Ultimamente, anda preocupada com a quantidade de moços e moças, que atraídos pela oportunidade de trabalhar no megaprojeto da Alcoa, juntaram suas economias e foram para a cidade. Aqueles que não conseguiram colocação hoje perambulam pelas ruas, muitos sem ter como voltar para as suas cidades de origem:- Outro dia mesmo eu atendi uma jovem que veio de longe, certa de ter uma vaga na Alcoa porque a irmã dela tinha se empregado. Fez os testes, foi aprovada, mas na hora de fazer os exames de admissão descobriu que estava grávida. A empresa não admitiu sem ter para onde ir, já que a irmã não tem condições de mantê-la disse Gilza.A Alcoa já tem um Centro de outras unidades que procura atender esses casos, mas Gilza gostaria de, ela também, fazer um projeto maior, sustentável, que pudesse não só dar chance a esses jovens como não permitir mais que este tipo de caso acontecesse. Por isso, achou muito bem-vindo o convite da empresa para fazer parte da primeira turma da Escola Juruti de Sustentabilidade.- Minha expectativa é grande, que nós consigamos aprender a fazer projetos para poder apresentá-los à empresa. Nós sabemos que existe aqui uma possibilidade de engajar recursos, mas não sabemos como fazer o projeto para apresentá-lo à empresa – disse ela.Gilza nasceu e vive em Juruti já 38 anos. Nesse tempo, viu sua cidade mudar de cara depois que a Alcoa chegou. Mas não faz parte do coro dos descontentes. Sabe que a empresa precisa nutrir um bom relacionamento com a comunidade e acha que, pelo menos por enquanto, está fazendo a parte dela:- A criação do Conselho Juruti Sustentável, por exemplo, é uma excelente iniciativa.

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